quarta-feira, 5 de novembro de 2008



Beijo


Tu nasceste de um beijo e de um olhar.
O beijo
Numa hora de amor, de ternura e desejo,
Uniu a terra e o céu. O olhar foi do Senhor,
Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor;
De um júbilo divino os cantos entoava
A natureza mãe, e tudo palpitava,
A flor aberta e fresca, a pedra bronca e rude,
De uma vida melhor e nova juventude.


Minha alma adivinhou a origem do teu ser:
Quis cantar e sentir; quis amar e viver;
A luz que de ti vinha, ardente, viva, pura,
Palpitou, reviveu a pobre criatura;
Do amor grande, elevado,
abriam-se-lhe as fontes;
Fulgiram novos sóis, rasgaram-se horizontes;
Surgiu, abrindo em flor, uma nova região;
Era o dia marcado à minha redenção.
Era assim que eu sonhava o homem.

Era assim: Corpo de fascinar, alma de querubim;
Era assim: fronte altiva e gesto soberano,
Um porte de rei a um tempo meigo e ufano,
Em olhos senhoris uma luz tão serena,
E grave como Juno, e belo como uma cena!
Era assim, o homem que extasia e domina,
o homem que reúne a terra e o céu: me fascina
Neste fundo sentir, nesta fascinação,
Que pede do poeta o amante coração?
Viver como nasceste, ó beleza, ó primor,
De uma fusão do ser, de uma efusão do amor.
Viver, — fundir a existência
Em um ósculo de amor,
Fazer de ambas – uma essência,
Apagar outras lembranças,
Perder outras ilusões,
E ter por sonho melhor


O sonho das esperanças De que a única ventura

Não reside em outra vida, Não vem de outra criatura;

Confundir olhos nos olhos, Unir um seio a outro seio,

Derramar as mesmas lágrimas

E tremer do mesmo enleio,Ter o mesmo coração,
Viver um do outro viver...Tal era a minha ambição.
Donde viria a ventura desta vida?
Em que jardim colheria esta flor pura?
Em que solitária fonte
Esta água iria beber?
Em que encendido horizonte

Podiam meus olhos ver Tão meigo tão viva estrela,Abrir-se e resplandecer?Só em ti: — em ti que és belo,

Em ti que a paixão respiras,/Em ti cujo olhar se embebe

Na ilusão de que deliras,
Em ti, que um ósculo
Teve a singular virtude
De encher, de animar teus dias,

De vida e de juventude...Amemos!
diz a flor à brisa peregrina,
Amemos! diz a brisa,
arfando em torno à flor;
Cantemos esta lei e vivamos,
De uma fusão do ser, de uma efusão do amor.